Indicadores mostram piora em relação ao 1º mandato, iniciado em 2009.
Produção industrial e PIB, porém, apontam que o país está se recuperando.
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O segundo mandato de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos começa com dados econômicos piores que os registrados em 2008, antes de o democrata assumir o cargo. Ao longo dos quatro anos do primeiro governo, por exemplo, o desemprego subiu de 5,8% para 8,2%. A dívida pública disparou, passando de 76,1% para 107,2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Obama tomou posse de seu segundo mandato oficialmente neste domingo (20). O juramento ocorreu em uma cerimônia discreta e privada, no Salão Azul da Casa Branca, na capital, Washington. Ele estava acompanhado da primeira-dama, Michelle, e de suas filhas, Sasha, de 11 anos, e Malia, de 14.

É preciso considerar, no entanto, que o presidente enfrentou a crise mais grave da história recente do país, responsável pela piora da economia norte-americana.
Segundo especialistas ouvidos pelo G1, a crise imobiliária que estourou em 2008 nos Estados Unidos explica alguns dos dados mais negativos e preocupantes do governo Obama. O desemprego é consequência da menor produtividade da economia. Já o crescimento da dívida pública e a queda das reservas –de US$ 4,8 bilhões para US$ 1,8 bilhão, em 2010– é resultado, em grande parte, das medidas de estímulo e salvamento tomadas por conta da crise.
Mas se por um lado se discute por que a recuperação demora tanto e o desemprego não cede, por outro há dados que parecem apontar um processo de recuperação. A produção industrial subiu de -3,3% em 2008 para 1,2% em 2011. O PIB deve crescer 2,2% no primeiro trimestre de 2013, ante uma queda de 0,3% em 2008.
"Os números do fim de 2012 já apontam que a economia está em processo de expansão. Não no nível que costuma ser nos períodos de pós-recessão, não vem atingindo as expectativas, mas não vem sendo produção industrial fraca. Os EUA voltaram a ganhar competitividade e outros países perderam com salário e inflação mais altos que nos EUA”, diz Carlos Viana de Carvalho, professor da PUC-RJ e sócio da Kyros Investimentos, que foi economista da unidade de Nova York do Banco Central dos EUA (Fed) entre 2007 e 2011, ou seja, durante parte dos governos Bush e Obama.
Vale comparar?
Apesar do marco da crise, a quebra do banco Lehman Brothers, ter ocorrido antes da eleição de Obama, em setembro de 2008, foi logo no início da gestão do democrata que problemas relacionados ao crédito imobiliário começaram a surtir efeitos mais profundos. Ou seja, era natural esperar que a economia despencasse, e alguns economistas consideram "errado" comparar os períodos.
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"Acho que é injusto culpar Obama pela piora da economia. A recessão foi incomum por várias razões, estava associada a uma ampla crise financeira, teve um amplo impacto na economia e veio depois de um longo período de estabilidade, tendo também um elemento surpresa", diz ao G1 o chefe do departamento de economia da University College London, Morten Ravn, que estuda a crise e o efeito de políticas fiscais.
Entre os americanos, há mais gente culpando George W. Bush que Obama pela crise, segundo uma pesquisa publicada no jornal "The Washington Post", em novembro do ano passado. Perguntados sobre qual dos dois viam como responsável pela crise, 53% apontaram Bush, quase quatro anos depois de ele deixar a Casa Branca, e 38% falaram em Obama.
Desemprego
Um dos problemas que mais afeta os americanos, o desemprego cresceu de 5,8%, em 2008, para 8,2%, em 2012, com dois fatores que agravam a preocupação.
Por um lado, o desemprego pode estar bem pior do que mostram os números, já que quem parou de procurar vaga não "engorda" a taxa. Além disso, o desemprego de longo período está bem acima de outros períodos de crise e é o que costuma trazer consequências mais graves. Em dezembro de 2011, quase 40% dos desempregados estavam sem vaga havia mais de 27 semanas, segundo o Escritório de Estatísticas de Trabalho dos EUA (BLS, na sigla em inglês).
É aí também que as políticas da gestão Obama tiveram o pior desempenho, na opinião de alguns analistas –também quando comparado com outras recessões. "Esse desemprego de longo período está mantendo a atividade em baixa por conta da incerteza que induziu nos empregados, que se preocupam com a perspectiva de perda de emprego", diz Ravn.
Um dos indicativos dessa preocupação é que o acordo do "abismo fiscal", que determinou cortes no orçamento dos EUA, manteve os benefícios para os desempregados de longo período.
A dificuldade em fazer o desemprego cair é vista como consequência da intensidade da crise, que minou o crescimento da economia, segundo Viana de Carvalho, ex-economista do Fed de Nova York. "O desemprego é uma variável que se mexe com muita defasagem e ele vem caindo na medida em que a economia se recupera. A questão é por que a economia não está crescendo", diz.
Endividamento
O aumento de mais de 30 pontos percentuais na dívida pública em relação ao PIB se explica em boa parte pelo esforço que o governo teve de fazer para evitar que a crise fosse pior, com medidas de estímulo e salvamento de empresas. Além disso, a economia lenta também reduziu a arrecadação, deixando menos dinheiro para cobrir as contas.
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais das Faculdades Rio Branco, lembra que Obama teve de agir de uma forma impensável nos Estados Unidos, salvando bancos e montadoras, o que fez com que ele fosse chamado se socialista por opositores. "Imagina o que aconteceria se GM, Crysler e AIG quebrassem? É por isso que se diz que Obama conseguiu evitar uma nova depressão. O custo foi o endividamento do governo", diz Gunther.
As guerras também ajudaram no endividamento. Segundo Gunther, Bush usava crédito suplementar, reduzindo os gastos "oficiais" com a guerra e Obama incorporou os gastos no orçamento. A situação das contas ficou pior, mas mais real.
Acho que é injusto culpar Obama pela piora da economia. A recessão foi incomum por várias razões, estava associada a uma ampla crise financeira, teve um amplo impacto na economia e veio depois de um longo período de estabilidade"
Morten Ravn, chefe do departamento de economia da University College London
Dados positivos
No meio desses dados fracos, a produção industrial surpreende por ter saído de uma queda de 3,3%, em 2008, para uma alta de 1,2%, em 2011.
Parte da explicação para esse crescimento vem da China, onde está havendo um encarecimento da mão de obra, que começa a afastar empresas do país. A revista britânica "The Economist" publicou uma reportagem chamada "O fim da China barata", apontando o problema.
Houve alta de 10% nos salários nos primeiros três meses do ano passado, segundo uma pesquisa feita com 200 empresas sediadas em Hong Kong pelo banco de investimento Standard Chartered. A alta dos custos está entre os principais desafios para 91% dos empresários filiados à Câmara Americana de Comércio em Xangai. Corrupção e pirataria ficaram para trás.
Já nos EUA, muito por conta da crise e do desemprego em alta, o custo do trabalho está em queda, atraindo empresas de volta para o país. Segundo o ministério do trabalho americano, o custo unitário do trabalho caiu de US$ 93,7 para US$ 85,7 em 2011, rivalizando com o de Taiwan, que estava em US$ 84,1 no mesmo ano.
Um dos exemplos mais fortes foi o anúncio da Apple, em dezembro, de que vai voltar a produzir uma das linhas dos computadores Mac exclusivamente nos EUA, a partir deste ano.
A queda no preço da energia é outro dos fatores que contribuem para a volta das empresas aos EUA, diz Gunther, das Faculdades Rio Branco. "É uma revolução silenciosa que está ocorrendo no país. Os EUA apostam principalmente na transformação do xisto em produto competitivo. Está havendo transformação de matriz energética com um processo que barateou a extração de gás. Isso tem ajudado a baratear os custos de produção", diz.
A redução da inflação, consequência da recessão, também ajuda a reduzir os custos. Os preços caíram de 3,8% para 2,2% entre os dois mandatos de Obama.
Erros de Obama
Apesar das explicações para os dados ruins e a tendência de melhora, há dúvidas se a gestão Obama não poderia ter minimizado o sofrimento.
As críticas ao governo apontam, por exemplo, a falta de ações em relação ao mercado imobiliário, responsável pela bolha da crise. "Tanto nos dados quanto na teoria, o crítico foi o alto nível de dívida no setor doméstico. Então por que a política macroeconômica não combate diretamente este problema?", questiona o professor de finanças da Universidade de Chicago, Amir Sufi, em artigo da "Bloomberg". Sufi tem estudado os efeitos dos estímulos na crise dos EUA.
Na campanha pela presidência, a equipe econômica do adversário republicano, Mitt Romney, divulgou artigos comparando esta crise com outras e apontando erros nas medidas tomadas. Como resultado, a recessão teria se arrastado mais do que deveria e o governo Obama seria culpado.
Morten Ravn, chefe do departamento de economia da University College London, acha possível que, no futuro, se perceba que erros econômicos foram cometidos na gestão Obama, mas "provavelmente serão bem diferentes da noção de que 'muito pouco' foi feito".
Já para Rudzit, das Faculdades Rio Branco, a desregulamentação do sistema financeiro implementada desde o governo George W. Bush dificultou a recuperação. "Se há alguma herança maldita, foi a de George Bush, de um país quebrado. A crise, em boa parte, se deveu a uma grande desregulamentação estruturada no governo W. Bush", diz.
Carvalho, que trabalhou no Fed de NY assessorando o atual secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, acha que a dificuldade de encerrar a crise do país tem a ver com sua intensidade e a crise mundial que veio como consequência. A crise europeia, por exemplo, freou o crescimento que os EUA começavam a alcançar e elevou a incerteza. "Mas parece claro que o país, que foi o centro da crise lá atrás, teve capacidade e fez boa parte do ajuste."